O quê e como parlamentares do Congresso Nacional falam sobre meio ambiente nas redes sociais

Análise de redes sociais 2021-2022

RAC/MIDIARS

Nos nossos dias, uma parte importante do debate público acontece nas redes sociais. No caso do Congresso Nacional, durante a pandemia, não só às atividades se restringiram aos meios remotos, como também o debate migrou com mais rapidez para os meios digitais. Como muita gente fala sobre muita coisa nas redes sociais, estamos dando uma mãozinha para que eleitores e eleitoras possam ter uma visão abrangente sobre tais debates, analisando os perfis de deputados(as) e senadores(as).

Para isso, apresentamos os resultados de um estudo realizado pelo MIDIARS com o objetivo de analisar as principais pautas que marcaram os discursos dos parlamentares que compõem o Congresso Nacional e como as pautas relacionadas ao meio ambiente aparecem em seus perfis.

Como foi feito.

O estudo combina inteligência artificial com o olhar aguçado de duas pesquisadoras especialistas em análises de redes sociais1, sobre todas as postagens feitas por parlamentares entre 1º outubro de 2021 e 1º de julho de 2022. Foram examinadas aproximadamente 320 mil postagens no Twitter, de 475 contas de deputados e deputadas, senadores e senadoras. A análise examinou quais temas foram mais tratados, como foram tratados, quais os fluxos de interação mais relevantes, e como se estruturam os discursos.
Porque o Twitter.
Por vários motivos, o Twitter é a primeira rede social que deve ser examinada quando se quer entender o debate público digital. Esta é a rede social que alimenta as demais – é onde primeiro aparecem os temas políticos e as polêmicas que depois são repercutidas nas outras redes. Ela também pauta os grandes veículos de comunicação. Muitas lideranças políticas e pessoas ocupando importantes cargos públicos utilizam a rede até para posicionamentos e informações oficiais. Além disso, é a rede onde os debates acontecem de forma mais clara, por contraste ao Facebook e Instagram, onde as propagações se dão em grupos mais homogêneos (as famosas “bolhas”).
Achados (I).
As pautas ambientais ainda não estão entre as mais tratadas pelos congressistas: saúde, educação e segurança são as mais frequentes, tratadas por parlamentares de todo o espectro político, da esquerda à extrema-direita.

Foram utilizados termos como “meio ambiente”, “ambiental”, “clima”, “indígena”, “garimpo”, “mineração”, “floresta”, “Amazônia”, entre muitos outros, para identificar os temas ambientais. De forma geral, aparecem como temas mobilizadores apenas entre alguns parlamentares da esquerda, ou de forma reativa e pontual em torno de eventos de grande repercussão, como o “Ato pela Terra” e o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Philips.

Na Câmara dos Deputados, os discursos relacionados a temas ambientais aparecem relacionados aos termos que podem ser vistos na imagem a seguir.

Discurso dos Deputados
Vemos dois grandes núcleos: o verde, é crítico das ações do governo, é articulado principalmente por deputados da esquerda; o rosa, que relaciona meio ambiente com desenvolvimento e fiscalização, está vinculado a partidos de centro e direita.

O debate sobre destes temas foi marcado pela oposição a ações do governo federal (menções a “desmatamento”, “garimpo ilegal”, “mineração em terras indígenas”), e este tratamento, mais volumoso, está representado no grafo acima pelo grupo verde.
Entre os que se posicionam favoravelmente às ações do governo, destaca-se a utilização de termos como “preservação ambiental” e “terras indígenas” para legitimar ações do governo federal, combinando com “projetos”, “trabalho”, “verdade”, “Bolsonaro”, “Brasil”, entre outros.

Note-se que o uso do termo “verdade” tem o intuito de apoiar a narrativa de que as ações do governo no campo ambiental são necessárias para o desenvolvimento do país e dos povos indígenas, e deslegitimar as críticas que supostamente “esconderiam” esta falsa “verdade”.

Ainda na Câmara dos Deputados, os tópicos mais comentados foram os seguintes:

Discurso mais importante
Vale notar que há uma forte conexão com o tema “povos indígenas” que emerge do contexto do assassinato de Bruno e Dom, em que a associação do tema se dá muito mais com “garimpo ilegal” do que com a pauta da demarcação de terras e dos direitos indígenas.

No Senado Federal, a pauta ambiental tem baixíssima relevância. Nos poucos momentos em que as pautas relacionadas ao meio ambiente aparecem nos discursos dos senadores, é como reação a fatores ou condições externas, como os assassinatos de Dom Phillips e Bruno Pereira e, eventualmente, durante o debate de projetos relacionados à Amazônia, povos indígena e ao meio ambiente.

Povos indígenas
Achados (II).
Os parlamentares mais envolvidos no debate ambiental no Twitter são de partidos de esquerda (PT, PSOL, PCdoB) e, individualmente, alguns do PSB.

O núcleo central do debate (verde), que mobiliza discursos de crítica às ações do governo federal, é liderado por Nilto Tatto (PT), que é o parlamentar que mais se envolveu nesta pauta nas redes sociais. Ainda na oposição ao governo, um segundo grupo de parlamentares, entre os quais se destacam deputadas do PSOL, como Vivi Reis e Áurea Carolina, utilizaram mais termos relacionados à questão climática (“crise climática”, “COP26”).

Parlamentares mais envolvidos
O terceiro grupo é puxado por outros parlamentares do PT e também do PSB, e também fez um debate um pouco mais diversificado que o primeiro grupo. Foram citadas pautas como a Crise Climática, Destruição Ambiental; Vida, Defesa, Meio ambiente, Direitos, Luta; Terras indígenas, Mineração, Urgência; Garimpo ilegal, Governo, Desmatamento; Bolsonaro, Política, Destruição. Aqui, novamente a oposição ao presidente Jair Bolsonaro aparece com alguma força“

O grupo de parlamentares que apoiaram ações do governo federal é liderado por parlamentares da direita e da base do governo Bolsonaro, como Alexandre Frota (PSDB) e Carla Zambelli (PL). Os parlamentares de extrema direita e direita apoiadores do governo se apropriaram do discurso de defesa dos povos indígenas, – principalmente no contexto do assassinato do Don e do Bruno – e o articulam com “desenvolvimento”.

No Senado Federal, como reflexo da baixa relevância dos temas ambientais, observa-se a fragmentação dos parlamentares em vários grupos menores que discutiram questões relacionadas ao meio ambiente de forma mais isolada, como mostra o grafo a seguir.

Parlamentares mais ativos
O terceiro grupo é puxado por outros parlamentares do PT e também do PSB, e também fez um debate um pouco mais diversificado que o primeiro grupo. Foram citadas pautas como a Crise Climática, Destruição Ambiental; Vida, Defesa, Meio ambiente, Direitos, Luta; Terras indígenas, Mineração, Urgência; Garimpo ilegal, Governo, Desmatamento; Bolsonaro, Política, Destruição. Aqui, novamente a oposição ao presidente Jair Bolsonaro aparece com alguma força“

O grupo de parlamentares que apoiaram ações do governo federal é liderado por parlamentares da direita e da base do governo Bolsonaro, como Alexandre Frota (PSDB) e Carla Zambelli (PL). Os parlamentares de extrema direita e direita apoiadores do governo se apropriaram do discurso de defesa dos povos indígenas, – principalmente no contexto do assassinato do Don e do Bruno – e o articulam com “desenvolvimento”.

No Senado Federal, como reflexo da baixa relevância dos temas ambientais, observa-se a fragmentação dos parlamentares em vários grupos menores que discutiram questões relacionadas ao meio ambiente de forma mais isolada, como mostra o grafo a seguir.

Achados (III) Influências.
Os perfis mais citados por deputados e deputadas, na pauta ambiental, podem ser vistos na imagem seguinte.
Quem mais influenciou
As postagens feitas por senadores e senadoras mencionam um número muito maior de atores, como mostra o grafo abaixo, o que é coerente com a fragmentação das conversações naquela Casa.
De quem falam
Destaques finais.
O debate sobre meio ambiente ainda se dá de forma extremamente limitada no Congresso, sendo uma pauta relevante apenas para partidos de esquerda e, mesmo assim, para uma proporção relativamente pequena de parlamentares. Destacam-se também alguns parlamentares ativistas que se elegeram a partir do bolsonarismo.

A atividade assídua de poucos parlamentares e a baixa participação da maioria, faz com que as análises sobre o debate no congresso tenda a refletir mais a posição dos parlamentares mais ativos nas redes sociais.

No entanto, partidos de esquerda e de centro esquerda apresentam um potencial maior de fortalecer a discussão sobre o tema, quando instigados por temas de relevância social. A atividade significativa e o engajamento médio de parlamentares do PT, por exemplo, se apresenta como uma possibilidade interessante para motivar o debate sobre meio ambiente e atrair mais força para a pauta em meio à sociedade, desde que estes parlamentares estejam dispostos a se engajar mais nas discussões sobre o tema como regra e não apenas em situações extraordinárias.

1Raquel Recuero é pós-doutora em linguística aplicada, Doutora em Comunicação e Informação e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com graduação em Comunicação Social e em Direito. É coordenadora do Laboratório de pesquisa MIDIARS (Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais). Professora e pesquisadora do Centro de Letras e Comunicação da Universidade Federal de Pelotas e pesquisadora do Programa de Pós Graduação em Comunicação da UFRGS. Autora de vários livros sobre redes sociais na internet e mídia social, capítulos e artigos, tem experiência nas áreas de Comunicação e Linguística Aplicada, com foco em Mídia Social, Discurso e Métodos Digitais. Currículo Lattes.

Taiane Volcan é Doutora em Letras pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) com tese focada na análise do discurso político no contexto das redes sociais na internet. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Cibercultura e Análise de Discurso Mediado por Computador, atuando principalmente nos seguintes temas: política, discurso mediado por computador e desinformação. É pesquisadora do MIDIARS e professora convidada no SENAC-RS.